O mais lógico para quem sai do Brasil com a intenção de viver ou intercambiar por outro país seria se aproximar apenas de locais a fim de aprender uma nova cultura, língua e fazer amizades com pontos de vista diferentes do brasileiro. É claro que a interação nem sempre precisa ser restrita a locais. Brasileiro também pode ter amigo brasileiro no exterior. Mas isso deveria ser exceção. É, no entanto, praticamente uma regra.

Brasileiro gosta mesmo é de se juntar com brasileiro para falar sobre a Política e a Economia do país. Para discutir se o Lula vai ser presidente em 2018 ou se ele vai ser preso amanhã. Brasileiro quer cozinhar feijoada no domingo, chamar os amigos para compartilhar uma cerveja beeeeem gelada (o que não é normal em países europeus ou na Austrália, por exemplo) e ouvir MPB. É mais fácil ter amigos brasileiros, faz a gente se lembrar de casa, afinal, temos muito mais em comum com nossos conterrâneos do que com alemães, húngaros, portugueses, australianos, chineses etc.

Um amigo holandês, que é casado com uma brasileira amiga minha há algumas décadas, certa feita comentou que leu no Facebook um post de um menino que havia morado um ano na Irlanda e estava retornando pro Brasil. Ele fez uma postagem bonita, daquelas de agradecimento pelo tempo que viveu em Dublin, com uma foto marcante et cetera e tal. A postagem tinha uma passagem mais ou menos assim: “Gostaria de agradecer a todas as pessoas incríveis que eu conheci na Irlanda, ao João Pedro, ao Marcelo, à Ana, ao Gustavo…” e por aí vai. Todos os nomes soam extremamente familiares, pois são brasileiros (ou vai me dizer que você conhece um irlandês chamado João Pedro?)

Como que ele não conheceu um irlandês incrível morando durante um ano na Irlanda? Todas as pessoas legais, que passaram tempo com ele, que o ajudaram, foram em festas, bebedeiras, passeios são brasileiras. Será que ele não poderia ter vivido essa experiência no Brasil? Aliás, será que ele acharia essas pessoas incríveis a ponto de as agradecer pela amizade publicamente no Facebook se ele as tivesse conhecido no Brasil? Sei não, mas fico mais inclinada a dizer que não.

Andei pensando sobre isso nas últimas semanas. Conheço pessoas que vivem há anos no exterior e os melhores amigos dessas pessoas são brasileiros (aqui estou falando de amigo que você vê em carne e osso quase todas as semanas e não os amigos brasileiros que ficaram no Brasil e você contacta via Skype). A esposa desse amigo holandês que me contou a história mora há 16 anos na Holanda e disse que todos os amigos e amigas de verdade que ela tem em Amsterdam são brasileiros. Eu digo o mesmo. Meus melhores amigos em três anos vivendo em Portugal são brasileiros. Eu fiz amigos portugueses, é claro. Na faculdade conheci vários, em festas, no trabalho. Até cheguei a ter um namorado português e uma família adotiva portuguesa (que não é a família do meu ex). Mas nunca era a mesma coisa. Eu tinha que me adaptar a eles, aprender as piadas, sobre a História do país, diferenças culturais e todas as coisas que influenciam em um diálogo entre A mais B. É pesado, é difícil. Chega a ser desconfortável vez em quando.

Meus amigos de fé aqui na Alemanha (onde vivo agora) são todos brasileiros – e isso não tem nada a ver com a barreira idiomática, pois, assim como a amiga casada com o holandês, falo o idioma local (no meu caso, Alemão, no dela, Holandês), além de Inglês. Eu tenho sim amigos estrangeiros e moro com um russo. Mas não é a mesma coisa. Me dá um alívio muito grande ir ao forró (coisa que eu não fazia no Brasil) apenas para ver as pessoas dançarem. Me deixa feliz quando alguém fala Português na rua (mesmo que não esteja falando comigo) e eu logo replico: “Ai que delícia ouvir minha língua”.

Isso tem a ver com compartilhamento de costumes, cultura e valores. É bom passar tempo com quem entende um piada com referência ao Chapolin ou sabe quem foi Raul Seixas. Ter amigos brasileiros ajuda a sanar as saudades de casa (a gente toma Guaraná juntos, divide a cerveja da mesma garrafa em copos e é capaz de sambar sem cerimônia mesmo sem nunca ter formalmente aprendido apenas porque somos brasileiros). Mas não é apenas isso. Brasileiro conhece brasileiro. Quando alguém nos apresenta um novo alguém, sabemos de cara de “fomos com a cara da pessoa ou não” só de olhar – mas isso só funciona se a pessoa tiver nascido ou crescido no mesmo lugar que a gente. Se for alguém de outra nacionalidade, vai levar um pouquinho mais de tempo para “sacar” a pessoa.

Uma das melhores coisas que existe é poder contar com brasileiros logo que se chega a um novo país no exterior. São eles que vão explicar a burocracia na sua língua materna. Qual o melhor seguro saúde? Como faz para recolher imposto? Onde me registro na cidade? Quais são os meus direitos? Esse tipo de informação, apenas um conterrâneo pode dar com precisão. Esse tipo de informação precisa vir de alguém de confiança (e aqui não estou dizendo que todos os brasileiros são confiáveis e apenas eles, mas é mais fácil notar em quem confiar quando a pessoa é do mesmo país que a gente). São os brasileiros que vão te indicar para vagas de trabalho ou te emprestar dinheiro quando a coisa apertar (e é óbvio que vai ter gente que vai discordar de mim, mas isso é baseado na minha experiência pessoal e no relato de pessoas que conheço. Sempre há de haver quem tem sorte com as pessoas que cruzam o caminho, enquanto outros não a tem).

Mas é claro que vale a pena se abrir para outras culturas e conhecer gente do país que lhe hospede. Isso é obrigação, até porque essa terra não é sua, então não espere ser tratado como brasileiro apenas por ser um. Quem mora na Alemanha não pode demorar na fila do caixa do supermercado, tem que planejar o final de semana com antecedência e viver agendando compromissos (sejam encontro com os amigos ou uma conversa com o gerente do banco) senão ninguém te recebe. As regras sociais locais precisam ser aprendidas e seguidas à risca, mas isso não quer dizer que os locais vão te respeitar mais ou serem seus amigos. Isso faz apenas parte do processo de adaptação – o que eu acho super positivo porque há costumes alemães que deveriam ser imediatamente implementados no Brasil (com exceção de beber cerveja cada um na sua garrafa e em temperatura ambiente).

Ao meu ver, o grande segredo para começar amizade com locais, é achar pessoas que estejam a fim de ser amigas de estrangeiros. Pensemos pelo outro lado. Você mora no Brasil e faz amizade com uma francesa que vive por lá há dois anos. Vocês saem juntas, vão ao cinema, se apoiam em momentos difíceis. Um belo dia, ela te avisa que está de mudança para a Europa. A amizade vai continuar, é claro, mas a pessoa nunca mais vai fazer parte do seu dia-a-dia. Talvez isso não faça diferença para a maioria das pessoas, mas, para algumas, isso é crucial. Às vezes eu tenho a impressão que muitos estrangeiros evitam amizade com expatriados pela possibilidade de perda. Uma coisa é ir ao bar beber uma cerveja vez em quando, outra coisa é ser amigo de verdade do tipo “tô doente, me traz remédio”. Isso é o que complica muito no exterior, pois um expatriado geralmente está sem a família aqui – e os amigos são tudo. Já para o local, o estrangeiro é apenas mais uma pessoa que ele conhece.

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