Ronchamp poderia ser um local apenas com significado religioso e com visitação limitada a peregrinos se a capela que ali está não tivesse sido projetada por um dos mais importantes arquitetos do século XX, Le Corbusier. Também chamada de Notre-Dame du Haut (ou Capela de Nossa Senhora das Alturas), o prédio que segue os Cinco Pontos da Nova Arquitetura (falar disso pode causar palpitações emocionadas em arquitetos) é uma das referências da obra do francês. Por causa disso – e também da beleza visual do topo da montanha onde localiza-se a capela – o lugar entrou rota não só de peregrinos, mas também de turistas.

Com míseros 3 mil habitantes, Ronchamp despertou para o turismo há pouco tempo. A capela da cidade entrou no roll de 17 locais escolhidos como os mais importantes construídos por Le Corbusier em 2011 e, por esse motivo, está listada como Patrimônio Mundial da Unesco sob o título “Contribuição excepcional para o movimento moderno”. Foi mais ou menos aí que Ronchamp, no Leste da França, ficou famosa também entre os não-peregrinos e os não-arquitetos. A cidade fica a cerca de 40km da fronteira suíça e distante 90km da Alemanha. De Nancy até Ronchamp são quase 140km e dali até Strasbourg cerca de 170 quilômetros.

A antiga capela que ficava no local, o topo de um morro com uma paisagem deslumbrante, foi destruída na Segunda Guerra Mundial. Em 1950, Le Corbusier foi contratado para projetar uma nova igreja católica no local. O arquiteto aceitou o trabalho com o intuito de colocar em prática seus conceitos, publicizados em 1926. Ele convenceu os padres e freiras que fizeram a encomenda a erguer uma estrutura de concreto, apesar de, à época, a maioria das igrejas menores ou capelas serem de madeira. A proposta não foi facilmente aceita, mas o arquiteto se valeu da História para convencer sobre a necessidade de utilizar concreto na obra. A primeira capela que ali foi erguida veio abaixo em 1913, após um incêndio.

Vista externa de uma das fachadas da capela. Nenhum dos quatro lados é semelhante, todos têm ondulações e surpresas

A obra de “Le Corbu” (acho que não dá nada chamar pelo apelido, né?) trata-se de um edifício com quatro fachadas que representam os pontos cardeais tapadas por uma sinuosa cobertura de concreto aparente. Para um leigo em arquitetura, a impressão é que o teto pode vir abaixo a qualquer momento ou, ao menos, gera questionamentos sobre como a estrutura se sustenta.

O teto faz curvas do lado de fora e é côncavo quando visto do interior. A capela abusa da iluminação natural com aberturas e buracos de luz que, quando o sol brilha, aparentam ostentar uma lâmpada no topo tamanha a luminosidade que deixam escorrer pela estrutura. O teto escuro contrasta com as paredes brancas.  Não há quinas, pois as paredes unem-se em curvas.

A cor dos vitrais mistura-se à luminosidade que invade as frestas (ou buracos) deixados por Le Corbusier colorindo as paredes

Além do altar interior, há um altar no exterior, que praticamente invade uma das fachadas do edifício. Nos dias de verão, as missas são rezadas ali. Durante o inverno europeu, entretanto, as missas ocorrem dentro da capela, onde há poucos bancos, mas muito espaço para assistir de pé. Os turistas que estiverem pelo local no horário da missa podem assistí-la sem problemas.

Esse é o altar da capela. Sem glamour, apesar da fama. Simples e complexo ao mesmo tempo, como parece ser toda a obra de Le Corbusier

O local de visitação turística não limita-se à capela. Compõem ainda o complexo chamado Colline Notre-Dame du Haut um pavilhão para a entrada dos turistas e um monastério (onde vivem as freiras mais simpáticas do mundo!). La Porterie foi projetada por Renzo Piano e inaugurado em setembro de 2011. O monastério também é assinado por Renzo Piano, famoso arquiteto e engenheiro italiano (hoje ele também é Senador), que tem como obra mais conhecida o Centro Georges Pompidou, em Paris.

Maquete da Colline Notre-Dame du Haut. As construções foram feitas em escada para evitar que uma encubra a iluminação da outra

A casa das freirinhas também é aberta à visitação (apenas as áreas comuns, como cozinha e biblioteca). Os quatros são fechados para turistas, por motivos óbvios. Ali vivem cerca de dez irmãs, de vários lugares do mundo. A maioria delas já é bem idosa, mas há duas que são mais jovens e cuidam das velhinhas. Elas frequentam a missa na capela todos os dias. Sobem a colina de carro, já que necessitam de andador e cadeira de rodas para se locomover. Apesar da idade avançada, esbanjam simpatia aos visitantes e falam diversos idiomas.

Do exterior, dá para enxergar todas as salas e quartos que ficam voltados para a fachada da casa das freiras. Não há paredes, é tudo vidro

Elas ficaram super felizes em saber que eu era brasileira e me perguntaram várias vezes se eu estudava Arquitetura (afinal, estudantes e arquitetos de todo o planeta se deslocam até ali só para ver a capela de perto). Eu respondi que era jornalista, e ela ficou um pouco chateada. Daí eu disse que uma amiga minha (aliás, o motivo da viagem até lá foi essa minha amiga) era arquiteta, mas que estava lá na capela há duas horas babando a obra.

Subi o morrinho rapidinho para buscá-la, pois as irmãs já estavam fechando a casa para visitações. Deu tempo suficiente para Lara entrar e conhecer os dois andares (além do térreo, há um subsolo). Eu fui ao banheiro antes de sair, mas a Lara (beijo, amiga!) ficou perdida babando em umas plantas arquitetônicas no subsolo. Eu saí da casa pensando que ela havia me abandonado, vi a irmã fechando a porta da casa e subi montanha acima. Depois fiquei sabendo que Lara quase teve um treco quando viu que estava trancada e uma freirinha teve que voltar para destrancá-la. Hilário.

Essa é uma das tantas plantas que estão no subsolo da casa das freiras e explicam o conceito de construção do complexo

É complicado chegar em Ronchamp por outro meio de transporte que não seja carro.Se a ideia for ir de trem, é preciso desembarcar em Belfort (cidade bonitinha, com 50 mil habitantes e a 20km dali) e tomar um trem até a estação de Ronchamp. Da estação, é preciso ainda caminhar até a capela ou tomar um shuttle. O aeroporto mais próximo é o de Basel, na Suíça.

Eu e meus companheiros de viagem (além da Lara, já mencionada, o marido dela que também é arquiteto e dois amigos russos) saímos após o almoço de Nancy em direção à Ronchamp, com o objetivo de conhecer a capela. O plano era seguir dali para Strasbourg no final da tarde, o que acabou não ocorrendo porque ficamos mais tempo do que planejado visitando a capela. Acabamos jantando na cidade e conhecemos um dos poucos restaurantes que ali existem. Aliás, para comer fora em Ronchamp é melhor reservar lugar – essa foi a recomendação do pessoal que trabalha na portaria da capela. Eles telefonaram e reservaram mesa para nós em um dos três restaurantes da cidade. Foi um parto a viagem até Strasbourg, já bem à noite, mas conseguimos!

Apesar do cansaço, vale muito a pena ficar para assistir o pôr-do-sol do topo da colina e dar uma olhadinha na lojinha de souvenirs, que vende desde cartões postais a objetos católicos até livros de Le Corbusier e sobre a história do local, que já era point de peregrinação antes mesmo da capela existir.

SERVIÇO:

O quê? Notre-Dame du Haut ou Capela de Ronchamp

Onde? Na cidade francesa homônima ao nome da capela, no Leste da França

Quanto? O ingresso custa 6,50 EUR para adultos e 5 EUR para estudantes de até 26 anos

Quando? Funciona o ano inteiro, mas fecha em algumas datas comemorativas

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