Comentário constante entre aqueles que se aventuram por Berlin é que a cidade é chata, grande e há pouca gente na rua. As reclamações podem até ser verdadeiras, mas, quem as faz, apenas turistou por Berlin sem conhecê-la de fato. A cidade tem uma história tenebrosa. Foi destruída por bombardeios, evacuada por muitos, ocupada por quatro países diferentes até voltar a ser oficialmente a capital da Alemanha após a queda do muro que a dividiu por décadas. Para entender Berlin, é preciso estar ciente de tudo isso.

Para começo de conversa, a cidade foi projetada para abrigar quase 5 milhões de pessoas – e essa era a quantidade de gente que residia ali antes da Segundo Guerra Mundial. No pós-guerra, restou apenas metade da população – muita gente fugiu, outros a abandonaram porque estava destruída. Hoje, Berlim tem pouco mais de 3,5 milhões de habitantes, apesar de a região metropolitana Berlin-Bramderburgo alavancar esse número a 5 milhões.

 Berlin é esquisita por uma razão essencial: NÃO HÁ CENTRO. Mas, como assim, não há centro? Berlin não é uma capital comum. Não existe um bairro chamado de centro e que funcione como um, como ocorre na maioria das cidades do planeta. Há um distrito (chama-se distrito e não bairro, mas é como se fosse a mesma coisa) denominado “Mitte” (que significa “Meio”), onde fica a Alexander Platz e espalham-se vários pontos turísticos, mas Mitte não é centro. Na verdade, cada um dos doze distritos de Berlin possui seu próprio “centro”, além de características próprias. Diz-se que dá para conhecer uma pessoa (saber de seus hobbies, gostos pessoais e life style) apenas sabendo em qual bairro a pessoa mora. Eu concordo.

Não dá para conhecer Berlin em um dia. Nem em uma semana. Nem em um mês. Dá para gastar uma vida inteira tentando conhecer e entender Berlin sem sucesso. Isso porque a cidade é um ponto turístico em si só. Além dos lugares óbvios a se conhecer, que todo bom turista leva anotado na cartilha quando desembarca na cidade, há milhares de locais pouco visitados, que passam despercebidos, mas que carregam uma carga histórica secular. Berlin é multicultural e há pessoas de 190 países morando ali – e olha que o mundo tem 193 países no mundo, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU).

Dizem que Berlin não é Alemanha. O budget é diferente, mais baixo se comparado às demais cidades do país, e é super comum as pessoas falarem inglês ou, então, alemão errado. Aqui ninguém julga ou é julgado. Há distritos que abrigam comunidades inteiras, especialmente da Turquia. Quem anda pela rua em Moabit ou Neukölln (dois distritos berlinenses) certamente vai ouvir mais turco na rua do que alemão.

Agora, para quem quer cumprir a cartilha, eis abaixo um resumo dos principais pontos turísticos:

Mauer Park: Aos domingo à tarde, no verão rola um karaokê ao ar livre. Mesmo que não tenha o karaokê, se a visita for feita no inverno, vale a visita ao Flohmarkt (mercado das pulgas ou feirinha onde se pode comprar de tudo um pouco, seja novo ou usado). Tem umas comidinhas também que são bem boas (principalmente doces turcos, que parecem esquisitos, mas são bons demais!). Além dos tradicionais kebab e curry wurst (a linguiça com curry), há opções para veganos, vegetarianos, além de hamburger feito na hora. Se estiver chovendo, fica meio embarrado. Se o dia for de neve, cuidado para não escorregar.

No Flohmarket tem desde gente vendendo itens sem utilidade até artigos feitos por artesãos com todo amor e carinho

Um pouco mais adiante, na mesma avenida em que fica o parque, a Bernauer strasse, há resquícios do muro de Berlin original, além de um memorial à céu aberto que reconta a história do muro que passou por ali. Vale a pena visitar também o Centro de Documentação (tudo na mesma rua), cuja entrada é gratuita.

É na Bernauerstrasse que dá dimensionar o estrago que um muro duplo, cheio de armadilhas e protação, causou à cidade

O melhor lugar para ver o que restou do muro, entretanto, é a East Side Gallery. Ali está o pedaço original do muro em exibição. Original em partes, pois o local tornou-se uma galeria de arte, já que vários artistas foram convidados para pintar frações do muro com diferentes temáticas. Para chegar lá, o ideal é dirigir-se à Warschauer Strasse. De lá, caminham-se algumas quadras em direção ao rio até chegar ao memorial. O Muro fica às margens do rio Spree, que corta Berlin em uma espécie de zigue-zague. Há alguns anos, construiu-se um estádio mesmo em frente ao muro. Um fato interessante, inclusive, é que uma parte do muro foi retirada para que a nova arena pudesse “enxergar” o rio. Além disso, um fato que chega ser bizarro é um novo edifício de apartamentos construído em meio ao memorial. O mais inusitado é que há pessoas que adquiriram um imóvel e ali moram. Para tornar os empreendimentos possíveis, deslocaram-se frações do muro para a beira do Spree. Por ali é sempre bom de passear, tirar umas fotos para postar nas redes sociais ou apenas caminhar por toda a extensão do muro. O local está sempre abarrotado de turistas. Se tiver um dia bom, vale a pena aproveitar a calçada à beira do rio para tomar uma cerveja, um café ou apenas admirar.

Essa é a fração mais famosa da East Side Gallery. O local é disputado e fica impossível de fotografar sem um intruso

Há dois museus que considero imperdíveis em Berlin. O Topographie des Terrors, que fica próximo ao Check Point Charlie. A estação de metrô mais próxima dali é a Kochstrasse. Saindo da estação, vê-se logo o Checkpoint Charlie, o local mais tenso durante a Guerra Fria, pois ali era ponto de transição entre a Berlin soviética e a norte-americana. À direita da estação, fica o taz, die Tageszeitung. Vale a visita à fachada do jornal de esquerda apenas para observar a escultura na lateral: Um pênis gigante. Há uma história (muito boa e séria) por atrás da obra de arte. Há uma placa ali que a explica.

Não era a intenção da obra, mas a fachada do jornal mais à esquerda da Alemanha entrou na rota de atrações turísticas

A duas quadras da estação de metrô, à esquerda, localiza-se o museu. Para quem seguir reto pela Friedrichstrasse, cruzando o Checkpoint Charlie (ou seja, saindo do Oeste e entrando no Leste), depara-se com a Unter den Linden, avenida onde está o Brandenburg Tor (Portão de Brandemburgo). Dá pra ir a pé tranquilamente até porque a Friedrich é praticamente o coração de Berlim – além de abrigar diversas lojas por toda sua extensão. O outro museu que vale uma visita chama-se Jüdisches Museum Berlim. Também fica super perto do Check Point, na Lindenstrasse. O Topographie tem entrada grátis, o Jüdischer, não.

Além destes dois museus, há a Ilha dos Museus (Museuminsel), que abriga cinco museus de diferentes temáticas, mais ligados à arte. É uma ilha de fato, cercada pelo Spree. O local por si só já é sensacional, especialmente se o dia for de sol, pois daí várias pessoas sentam no gramado às margens do rio para tomar um café ou apenas ler um livro. O museu mais famoso da Ilha é o Pergamon. Quem der sorte, pode participar de um tour noturno pelos museus (se houver disponibilidade na data, pois não é sempre que há). O passaporte para os cinco museus sai por 18 euros.

Por trás da ilha dos museus há um bairro, que pertence à Mitte, chamado Hackescher Market. É o melhor lugar para compras em Berlin (na minha modesta opinião). Tem todas as lojas de marca famosas e acessíveis (Zara, H&M, Mango, Adidas etc), mas também lojas de estilistas, além de brechós. Tem uns restaurantezinhos também, com umas luzinhas coloridas e esplanadas, bem próximo à estação de metrô. Eu acho caro e ruim comer ali, pois cobram preço de turista (se bem que, em Berlin, isso não chega a ser uma facada no bolso).

Aliás, um dos melhores lugares para comer em Berlin é Kreuzberg. O bairro foi detonado durante a guerra e as construções são da época. Tudo parece velho e decadente (e dá até um medinho à noite, mas nunca se passa nada). Uma dica boa é ir à Kreuzberg comer à noite (e talvez estender a programação em algum das centenas de barzinhos). Tem lugares incríveis – mas recomendo dar uma pesquisada na Internet antes de sair de casa se não quiser caminhar a esmo. Outro bairro bom de comer é Neukölln, que agora tornou-se o bairro queridinho dos hipsters. Para aqueles que preferem se limitar ao Mitte, a região entre a Rosenthaler Platz e a Ebeswalderstrasse (ambas tratam-se de estações de metrô, mas também são nomes de ruas) está abarrotada de cafés e restaurantes para todos os gostos e bolsos.

A Kottbusser Tor é o coração de Kreuzberg. “Kotti”, para os íntimos, é a estação de metrô que te deixa justamente no centrinho do bairro. Favor chegar sem preconceito, pois o lugar parece trash, mas é bem melhor que isso. Quem segue pela Adalbertstrasse vai logo se deparar com uma imensa quantidade de restaurantes e cantinas. Já na avenida dessa mesma estação de metrô (que chama-se Skalitzer Strasse) tem um bar/danceteria/inferninho cujo nome é Monarch. A entrada custa 3 euros. A cerveja é barata (mas não vagabunda), a galera é amigável e sempre há banda tocando final de semana. O ponto fraco é que permite-se fumar no interior do bar, mas isso é uma constante em Berlin, pois a lei libera.

Aliás, quem quiser conhecer um pouco de Kreuzberg antes de desembarcar ali, é favor assiste ao clipe da música “Prayer em C”, que foi gravado nas principais avenidas do bairro. As pessoas que aparecem no vídeo em um carro conversível trafegam pela Skalitzer Strasse. Se a visita a Kreuzberg for feita durante o dia (também é super interessante e todos os restaurantes estão em pleno funcionamento), é obrigatório caminhar até a AdmiralBrücke. Ao descer na estação de Kotti e, ao invés de andar em direção ao centrinho, pega-se a rua oposta (que chama-se Kottbusser Strasse). Após cruzar pelo meio de uns condomínios residenciais, chega-se até uma ponte. A caminhada não demora mais do que cinco minutos. Ali tem um gramado IMENSO à beira do Spree. Grande, verde (no verão) e extenso mesmo. Em dias de sol, uma galera senta-se ali para desfrutar o final de tarde. Além de ficar às margens do Spree e da possibilidade de ver os patinhos nadando felizes pelo rio, há vários barzinhos tipo Bier Garten nas redondezas. Para quem quiser seguir um estilo-mais-berlinenses-de-ser, dá para economizar comprando uma cerveja em um mercado turco e beber sentado no gramado. Na Alemanha, está liberado beber na rua.

Visita óbvia é a Alexander Platz. Se Berlin tivesse centro, ele seria ali. Quem gosta de comprar roupas barata, vai enlouquecer com a Primark (uma loja de departamento GIGANTESCA que tem muita coisa barata com uma dose de trabalho semi-escravo envolvido no processo de produção). É na Alex Platz que fica o famoso relógio astronômico e a Torre da TV (vale a pena subir, mas também não perde muito quem não o fizer). Dali, dá também para caminhar até o Brandenburg Tor.

Para quem quiser evitar transporte público, sugere-se o aluguel de uma bicicleta. Dá para cumprir a visitação aos principais pontos turísticos da cidade em um dia de pedalada. É super seguro andar de bike e, Berlin, há ciclovias em todas as principais ruas e avenidas. Além disso, a cidade é totalmente plana, ou seja, ninguém vai se matar pedalando morro acima. Aliás, a única montanha fica no Volkspark Friedrichschain e ela é artificial. Após a Segunda Guerra, colocaram-se todos os destroços e corpos em uma pilha no local. Criou-se uma montanha, a única elevação geomorfológica da cidade. TRUE STORY.

Ao lado do Brandenburg Tor fica o Memorial ao Holocausto. Trata-se de um monte de vigas de concreto cinzas em fileira. Algumas menores, outras maiores. O interessante ali é a sensação que o lugar provoca, um misto de sufocamento com tensão – e essa deve ter sido a intenção do artista que o projetou. Um pouco mais adiante fica a Postdamer Platz (que também é o nome de uma estação de metrô). Ali fica o Sony Center onde está um dos únicos cinemas berlinenses que exibem filmes no idioma original, já que é costume dublar na Alemanha.

É favor não fotografar em poses bizarras utilizando o memorial em homenagem às vítimas de uma matança como cenário

(Quase) por fim, mas não menos importante, recomendara-se uma passada na Berghain. Considerada a melhor balada de música eletrônica do mundo. Difícil de entrar – e de sair também. A festa dura três dias. Isso mesmo. TRÊS DIAS. Aliás, em Berlim os seguranças sempre escolhem na porta quem entra e quem fica de fora. Reza a lenda que a Berghain é a danceteria mais difícil de entrar da Alemanha. Para quem é aceito na fila, o ingresso custa cerca de 15 euros. Ao comprar, a mão é carimbada para permitir que a pessoa entre e saia da festa quando quiser – pode entrar na sexta à noite, sair no sábado de manhã, ir para casa descansar e retornar no domingo à tarde, por exemplo. A balada fica numa antiga fábrica de tecidos, tem várias pistas de danças, gente de tudo quanto é tipo, sofás para dormir restaurantes com bebidas e café da manhã. É uma verdadeira experiência de vida. Um detalhe importante é que não dá para fazer fotos ou vídeos lá dentro. Quem descumprir a norma, é expulso no ato.

Um dos bares imperdíveis entre os inúmero que estão em Berlin é o Mein Haus am See. Fica na Torstrasse. A tradução do nome, explica bem a vibe do local: Minha casa de praia. Há uma arquibancada gigante ao fundo, de onde as pessoas podem observar quem está do lado de fora, já que a fachada é de vidro. É um dos poucos bares de Berlin que possui fumódromo, ou seja, ninguém fuma no bar propriamente dito já que há uma área designada para isso. Por fim, é favor pedir um MOSCOW MULE para sentir Berlin de verdade. Melhor-bebida-do-mundo.

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